Poeira Vermelha de LUZ: Palco do Primeiro Rodeio Brasileiro

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O rodeio existe desde que o mundo é mundo. Deus, depois de ter criado o homem e a mulher, após abençoá-los, disse- Alceu Maynard Araújo em seu livro "Brasil — Histórias, Costumes e Lendas", mostra-nos a origem do rodeio nacional tanto como trabalho quanto como divertimento. Diz que o "rodeio é o trabalho típico dos criatórios sulistas de gado". Escreve ainda que o vocábulo rodeio provém da palavra roda e originou-se da reunião do gado, pelos "peães" (vaqueiros mais velhos e experientes), nas coxilhas, onde não havia curral, quando as reses eram cercadas pelos "piás" (ou "guris"), que ficavam circundando os animais para que não se espalhassem, enquanto os adultos saíam para buscar as que estavam mais longe, para, depois de reunidas todas, marcar, contar, dar sal e curar as feridas (etimologia confirmada pelo Dicionário Aurélio).lhes: "dominai sobre os animais da terra" (Gênesis Cap. 1, 28). Estava, já no sexto dia da criação do mundo, estabelecido o elo entre o homem e cavalo, duas criaturas cujas naturezas seriam inseparáveis no decorrer dos milênios, como se vê nos livros de História.

Esse exercício, conhecido nos pampas como "parar rodeio", é transformado em verdadeiro jogo nos dias de festa ou confraternização entre os campeiros gaúchos, quando o rodeio, que é trabalho, transforma-se na "doma", a luta travada entre o homem e o animal, na qual o peão tenta domar o cavalo. É essa "doma", original, o duelo que vemos na arena, e que conhecemos por rodeio.

Contudo, a primeira festa de rodeio, formalizada, de que se tem notícia e registro, previamente organizada, com direito a propaganda e recinto 'próprio". ocorreu na cidade mineira de Luz, durante os dias 15 a 18 de Julho de 1943, tendo sua comissão organizadora sido formada pelo Cap. Alexandre S. d'Oliveira Dú (prefeito municipal)* , Tonico Macedo e Pedro Paulinelli, além dos idealizadores Juca Carlos e Rodolfo Filho (Dolfinho). Conforme deixou escrito o pesquisador e ex-prefeito luzense Tonico Macedo, esse Juca Carlos assistira a um "rodeio" (o que teria sido a "doma") no sul do país, e contando a história aos luzenses, resolveram realizar juntos um "rodeio gaúcho" em Luz, onde havia animais de raça e bravios, criados pelos fortes fazendeiros do município.

Não se teria prova documental dessa festividade não fosse a deferência a ela dispensada no artigo que comunicou o falecimento do presidente da festa e prefeito municipal, ocorrido na segunda-feira posterior ao evento. Assim noticiou o jornal "A Luz" (edição de 30.07.1943, ano XXI nº 795, p. 3): "A cidade ainda não se refizera das últimas impressões da véspera — das festas por que ele tão carinhosamente velara e que tanto quizera assistir." E não se poderia afirmar, com plena convicção, que estas "festas da véspera" fossem o rodeio luzense sem o agradecimento da família do pranteado extinto, por ocasião do "transe por que passaram". especialmente a aqueles, que nela se empenharam (como se vê à página 4 da citada edição do periódico "luceatine" “à comissão do Grande Rodeio Gaúcho e aos piões, que deram insofismáveis provas de sentimento deante do infausto acontecimento”.

Tal festa teve sua segunda realização nos dias 21 a 28 de Maio de 1944, sob a denominação de "Rodeio Luzense - Uma Semana dos Fazendeiros", quando um folder, previamente confeccionado, circulou pela cidade convocando a população para o 'interessante torneio", com montarias, exposição de animais de raça e leilão de bovinos. Um exemplar original desse panfleto é cuidadosamente guardado pelo nosso amigo Geraldo Lamounier de Vasconcelos (Geraldo Boresca). Interessante, que dito documento não possui data completa. sendo omisso quanto ao ano.
No entanto, consta naquele documento verde de mais de 58 anos que no domingo 28/O5), a célebre festa foi encerrada com a inauguração do Campo de Aviação, cuja bênção solene foi oficiada pelo bispo diocesano Dom Manoel Nunes Coelho. E convidando o público para tal inauguração, o jornal do bispado dedicou boa parte da primeira página d' "A Luz" o seu nº 824, que circulou a 20.05.1944; restando, destarte, associado o ano a data dessa festa, tida como "inesquecível, por sua originalidade e por sua utilidade prática", que contou com a bravura de peões, ainda lembrados com saudades, como Jaburu (homenageado pelo nome do Parque de Exposição de Luz), Irmãos Ferreira e Dolfinho (tio-avô do Pe. Célio Sílvio Vieira da Silva, atual pároco de Luz), que animavam o público com "emocionantes e arriscados exercícios de montaria".

Como até então se tinha em mente e na mídia, a primeira festa de rodeio ocorrida no país teria, sido realizada em Barretos, pelo Clube dos independentes, no ano de *** 1956 *** sob o título de "Festa do Peão de Boiadeiro". Pode até ter sido, mas com a denominação que se diz, porque a primeira festa de rodeio, formalizada, promovida em recinto apropriado numa cidade, foi a de Luz, no ano de 1943, sendo, pois, luzense "O Pioneiro Rodeio do Brasil", como é o lema da Exposição Agropecuária.
Com o passar dos tempos, e com a ebulição de Barretos, o rodeio primitivo, que quase não tinha regras (apenas valendo o tempo em que o peão conseguia ficar sobre o animal, o que era um festejo e tanto capaz de delirar a "platéia"), ganhou formas próprias, uniformizando-se mundialmente, à moda americana. O rodeio de Luz acompanhou essa evolução, contando com participação de cowboys profissionais, a partir da festa do seu cinqüentenário, em 1993, quando se modernizou o nome do evento, de exposição agropecuária para EXPOLUZ.

Adaptado - Iácones Batista Vargas - Pesquisador Luzense e Bacharel em Direito

* O Capitão Du foi prefeito de Luz até sua morte em 19 de julho de 1943, um dia após a realização das festas de Rodeio. Em Setembro do mesmo ano, assumiu o novo prefeito Antonio Guimarães de Macedo, que esteve à frente da festa em 1944 (vide convite do “Rodeio Luzense”).

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